sábado, 3 de novembro de 2012

Migalhas de você

Chego em casa, olho o relógio, dez da noite, ainda não chegou. Nem sei se vem hoje. Tá numa de cobrir turno, trocar o dia pela noite, de repente me coloca chifre e eu nem sei, mas agora são só dez horas e eu só sinto ausência.
Lembro de quando ela era completamente descontrolada por fazer planos, anotar cada detalhe e me obrigar a participar de seus devaneios, um tal de ir pra Teerã, querer ser da Cruz Vermelha, salvar o Greenpeace e as baleias, tudo ao mesmo tempo. Lembro também de imergir cada um de seus planos numa realidade escrota com a minha falta de tato. Então tomara que ela esteja me traindo.

Ligo a tevê pedindo pra que ela se arrependa e entre pela porta ofegante, se jogando em meus braços e suplicando desculpas, confessando erros, comendo na minha mão enquanto eu apenas digo -"Tudo bem, sua imperfeição faz com que eu pareça Deus. Me crava os dentes e me beija".
Tão triste, tá pra lá das onze e nenhuma ligação. Caixa de mensagens vazia, desterro no meu peito cinza. Ela não liga pro quão livre eu fico enquanto ela não está. Eu me saboto, posso jurar que o telefone tocou durante o banho, mas a secretária eletrônica só diz: sem mensagens.
Dá saudade dela. Dela e do vestido branco de algodão. Alguém abençoe aquele vestido branco e cada gota de chuva que caía sobre ele no primeiro encontro que ela teve com alguém.
Às vezes eu leio a mente dela e apenas diz - EU NÃO TE AMO MAIS! 
Eu não a (re)conheço há uns seis meses, mas a amo como se fosse chegar a qualquer momento. 
Já são duas da manhã e eu estou indo dormir sozinho novamente. Tomara que ela não desista de chegar.