terça-feira, 13 de março de 2012

Desesperos Tardios VII - O Que Acontece no Escuro


Hoje usei o banheiro de deficientes. E a vaga de estacionamento especial. Subi pela rampa com dificuldade tateando tudo em volta. Hoje eu li em braile e falei na linguagem dos sinais. Tão impotente que parecia não ter braços, pernas, muito menos uma cabeça, mas estavam todos lá, então o que me fez deficiente? Pedi ajuda por código morse e, por Deus, ninguém ajudou a malfadada.  
Senti-me tão inútil nas últimas duas horas e nas últimas duas semanas e talvez nos últimos dois meses que se estendem desde o último Natal bom que tive lá pelos anos noventa, que fiz questão de assumir minha má-formação publicamente sem saber se me viam. Fiz questão de cantar o canto torto do urubu que anuncia o que a grande maioria teme. Afugentaram-me.  Renegada, aquietei-me no canto do limbo onde o sapo modernista de Manuel Bandeira ainda dizia coisas descabidas para minha mente insana e confusa. Entrei na fila preferencial e fui a última a ser atendida, não tinham troco, não tinham tempo, uma cruz tão pesada sobre todos que desandei a procurar uma saída, mas o que me fez deficiente?
A margem, sem saber nadar, presa a um limbo e rejeitada por um sapo... Quisera eu ser a primavera pra depois morrer!  O que me fez perder as últimas duas horas na vaga para deficientes inventando coisas descabidas sobre não ter braços, pernas ou cabeça?
Disseram-me uma vez que: “dióxido de carbono concentrado mata, passarinho que não voa gato come, todas as proparoxítonas são acentuadas  e que bom que você nasceu saudável, menina.”  
Então, porquê eu sou tão deficiente?

2 comentários:

Ana C. disse...

Todos nós somos deficientes. Felizes são aqueles que aceitam a sua deficiência e a do outro. Nem todo mundo está disposto a fazer isso, é triste... Acho que por essas e outras que a humanidade anda capenga. Nós andamos de muletas em corda bamba. O que Freud diria?

Ingrid disse...

O que te fez deficiente por um dia ( talvez) foi o simples ato de viver. Eu diria que essa 'necessidade' de mostra-se faltante de algo' é a chamada(definição) vertigem do Milan Kundera.