domingo, 7 de fevereiro de 2010

Só as mães são felizes

Sentado na cadeira da cozinha via quantas xícaras estavam por lavar, e todas vinham num excesso de cafés e agostos.

Agosto tinha um gosto amargo, outras vezes era de um azedume que lhe embrulhava o estômago e pausava os pensamentos.

Aqueles pensamentos de tomar café com vodka, misturar umas bebidas e então ficar são.

Acender um cigarro, quebrar taças e depois dançar um tango na sala vazia.

Ver o noticiário, jogar a tv no lixo e comprar uma arma pra deixar de se defender.

Colocar a mão no fogo, sentir o cheiro bom de gás escapando indeciso entre deixar morrer ou matar.

Excessos, pecava por eles, por cada um deles. Como um tipo de frustração de ressaca que aspirina alguma cura.

Tão louco... Agora qualquer coisa lembra outra coisa, cada vez mais, cada dia mais inconsequente.

“Premonições pós-modernas no cinema de J.B. Tanko”.

Virar de cabeça pra baixo e não ver diferença no mundo. Ele não deixa de ser cinza de nenhuma perspectiva.

Ouvia um blues iluminado e puxava na memória algum poema triste de vanguarda. Não tinha o que fazer, não tinha o que chorar ou rir, só tinha insônia. Dessas que vinham em possessões incompreensíveis todas as noites de agosto, com ferroadas doídas de escorpião.

As noites tinham cara de novembro, mas a tristeza de agosto se fazia presente, marcante.

Não existiam outros tempos, só esses tempos ruins que não passam.

Havia excessos que matavam mais que outros.

Amor era um deles.

Agosto é feito de noites escuras e exageros românticos.

Numa noite escura ele negava sem ver, gemidos de sintetizador eletrônico espremiam sua vida até doer. Os olhos escuros refletiam a lâmpada acesa, quase outra lâmpada com o brilho um pouco mais opaco e muito mais vazio.

O espaço vazio agora se chamava dezembro.

Madrugadas regadas a cortes profundos na alma e na carne. Dor pra curar.

“A dor te acorda pra vida ou a vida te acorda pra dor?”.

Ele não sabia do que estava falando.

Bebendo como um rapaz de quase vinte, como costumam beber esses rapazes de quase vinte que desconhecem os limites e os perigos.

Sempre por um triz, a vida podia não ser feliz, mas sua única esperança era que não demorasse pra cessar.

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