sábado, 6 de junho de 2009

Tinta Solidão

Entrou pela porta, passou pela sala e automaticamente tentou ascender a luz do corredor como sempre, mas a luz havia queimado.

Não lhe importava muito, não havia mais o que ver ou apreciar, ela já não estava mais no recinto, no seu lar, seu reino.

“-Um dia todo mundo tem que partir, você também, você também...” – Balbuciou, como se fosse segredo.

Ele estava nitidamente abatido e com o dedo cortado, pela falta de intimidade com cozinha, decidiu nunca mais mexer em nada visivelmente afiado daquela parte da casa.

Pegou uma taça e o vinho que ela levou da última vez em que esteve lá, onde ele, agora, se encontrava sozinho. Pegou outra taça, encheu as duas e brindou com a solidão.

“-Ela não vem mais, nunca mais e agora estamos a sós novamente, bem vinda Solidão! Teu nome é bonito, começa com “Sol”, mas de cor e tom não me traz nada".

Tomou todo o conteúdo da sua taça e deixou sua companheira confortável para que demorasse o quanto quisesse por ali, apreciando o tal vinho, que na boca de outra já teve gosto mais doce.

Talvez precisasse que a solidão lhe ensinasse que o “nós” pode ser muito melhor do que o “eu” descontrolado, vagabundeando pelos lados, mas sem lado nenhum escolher.

Nós, eu, sempre teve dificuldade em separar uma parte pro todo, era tão acostumado com a individualidade que ser de mais alguém além de si mesmo lhe trazia sensação de fobia ou qualquer coisa que o valha. Não se trata de egocentrismo, é só desacostume.

A falta que ela fazia até o momento em que ele pegou no sono seria preenchida logo, pelo trabalho e por outras Solidões acompanhadas de vinho tinto e seco do porto mais próximo.

Mas enquanto achava que para dois não era preciso usar de plurais ou coletivos, mal sabia ele que durante muito tempo estaria atado em nós.

Daqueles que prendem bem forte.

4 comentários:

Senhorita Sara Bello disse...

Belo

Anônimo disse...

que bonito, nem sei como comento uma coisa dessas!

a vista de um ponto disse...

sabe o que me lembrou esse conto? A musica veja bem meu bem do Los hermanos no verso "amor, veja bem, arranjei alguém chamado saudade..."
Nesse caso também começa com s, mas é de solidão...
como sempre me imagino nas suas historias e em seus diálogos, e como sempre eles ficam cada vez melhores!

• YuЯi KiddO • disse...

veeeeeesh quebrou quebrou!!!

deu pra ver a cena e sentir a solidão presa em 'nós'. muito foda!