segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Sofá de Veludo Vermelho

Ele estava parado, encostado em uma das colunas que dividia a sala da cozinha, olhando fixamente para o chão e procurando um jeito inteligente de dizer que não acreditava no amor, mesmo diante da mulher que mais desejou durante seus jovens e impacientes vinte e dois anos.

Ela estava sentada no sofá de veludo vermelho, tingido agora, com a cor dos resquícios das lágrimas que caiam incessantemente, contra sua vontade. Tentando imaginar, de forma inteligente, o que se passava pela cabeça dele, após dizer que teria que partir, mas que ainda o amava. Devia estar confuso. Estava. Tentava ler sua expressão facial escondida por detrás da sombra e dos óculos de aro-grosso pelo qual era apaixonada.

Ele continuava parado, calado, mas seus olhos já haviam avistado os olhos do outro lado da sala, embaçados pelas lágrimas e se sentiu fraco. Ele estava preparado para a vida, sempre foi independente e decidido, mas ele se via dependente dela agora.

Suas mãos, braços e abraços, carinhos, caretas, suas palavras...

Ele se sentia rei, forte e onipotente, porque durante esses dias, ela esteve todos os dias no lugar marcado, com a beleza de sempre, o sorriso de sempre e o seu silêncio, que ao mesmo tempo em que lhe varria a alma e purificava a vida, deixava-lhe também a dúvida de quanto duraria... O sorriso, o silêncio, a alma, a vida.

Ela agora já recomposta, já sem lágrimas, olhava para ele como criança que espia conversa de adulto, olhava como quem não quisesse olhar, olhava através dos cabelos, que tampavam parte de seu rosto. Nunca foi de falar muito, mas tinha uma inteligência fora do comum, que ninguém, antes dele, havia descoberto, mas ela sempre preferiu se calar. O mundo interno dela era complicado demais até pra ela própria, não saberia explicar, não queria explicar. Ela só sabia, que com ele, todos os mundos que pudesse criar teriam todas as cores possíveis, sem amores impossíveis.

“-Acontece que quatro anos foi muito tempo” – Ele decidiu se pronunciar quebrando parte do silêncio, o silêncio interior continuava.

Aquilo a fez pensar que quatro anos não era nada e mesmo que quatro tivesse o mesmo significado quantitativo que um, ainda seria muito para ele. Ela pensou que fosse tola, pensou até em ir embora, pensou em dizer que... Ela pensou demais e ele resolveu falar qualquer coisa buscando uma reação.

“-Você sabe, não é hora, você disse que me amava, eu disse que não dá mais, espero qualquer coisa, pode me xingar, me bater, nada me surpreende agora...”.

Ela ouviu tudo, querendo não ter ouvido nada, respirou profundamente, levantou e se dirigiu lentamente até ele. Não olhou em seus olhos, não o tocou, já era demasiado difícil estar ali.

“-Você foi a melhor pessoa que eu conheci, eu me apaixonei por cada uma de suas qualidades sem pensar e acabei por amar cada um de seus defeitos pensando ser louca. Eu poderia ver o brilho dos seus olhos a quilômetros de distância. Eu gosto do teu riso contido e do modo como balança a cabeça depois de espirrar, gosto do cheiro de L.A na sua camisa, mesmo querendo que pare de fumar...”.

Ele ouvia tudo como quem não quisesse ouvir. Querendo não dar pra trás.

Ela continuava falando, com medo de não ter outra oportunidade, temendo que a atenção dele já não estivesse mais lá.

“Acontece que eu gosto do seu All Star verde e da sua barba por fazer, gosto da sua voz de Bob Dylan e do violão desafinado. Eu sempre vou gostar, me apaixonar e amar cada parte de você, não sei se é pra sempre, não duvido que seja, mas minhas palavras não são nada comparadas ao quanto eu te amo agora”. – Disse as últimas palavras pegando a bolsa que estava pendurada em uma cadeira laranja, junto com a passagem de volta para o lugar de onde veio.

Até que ele não quis mais saber de vaidade, resolveu esquecer do tempo e falar tudo o que queria de verdade.

“-Eu gosto de você impulsiva, sempre falou mais assim”. – Sorriu e ela permaneceu estática, com a bolsa e a passagem nas mãos, encarava a porta dessa vez. Ele entendeu o silêncio como uma autorização para continuar...

“-Você fica aqui uma semana e muda a minha vida, você brinca com isso e gosta disso, mas você vai embora hoje e eu vou ter que fingir que foi tudo sonho, me conformar que eu não posso nem ir atrás de você pra dizer que gostei da tua mão na minha, do seu sorriso e do sol. Terei que me conformar em não te ligar, me policiando para não pensar se você ouve nossa música todos os dias e vou querer me punir por pensar em você e não saber se está pensando em mim. Vou ter que lembrar que você ficava nas pontas dos pés para me abraçar e como abraçava forte... Vou ter que aceitar se você encontrar outra pessoa, não vou saber se você anda tropeçando muito ainda ou se o seu silêncio anda varrendo muitas almas por aí. Eu vou ter que te imaginar com uma meia de cada cor e isso já não me fará sorrir... Te imaginar cantando Beatles, mas não vou poder ouvir. O ruim é que todos os verbos estarão num passado que agora a gente não conhece, mas que vai doer. O tempo não afasta, a distância não afasta, as pessoas se afastam pelo medo de continuar, pelo medo da entrega. A maioria reclama que não pode mudar o passado, não mudam o presente e têm medo do futuro, mas isso não importa agora, eu amo cada parte de você.”.

Ela então, depois de presenciar novamente a chegada de um silêncio devastador, virou-se para ele como quem não quer se virar e mesmo com receio da resposta resolveu perguntar:

“- E agora? Como é que fica?”.

Antes que qualquer resposta fosse dada, ele resolveu olhar nos olhos e visualizar cada parte possível dela.

“-Agora você pega o avião de volta pra realidade, eu vou começar a reescrever nossa história no passado do presente”. – E sorriu, como quem não quisesse sorrir.

Ela partiu, deixando com ele metade de si e o silêncio, que agora, varria suas lágrimas do sofá de veludo vermelho.

3 comentários:

Puro Landoni disse...

"Você é especialista
em deixar o mundo mais bonito."

Incoerente amar e dizer que não acredita no amor...

Eu, por exemplo, não poderia dizer que nele não acredito, se amo a autora desses textos, se amo escrever, e se eu amo tudo o que a autora desses textos escreve.

Eu não deixaria ela partir se ela não quisesse. Minhas personagens são "mulheres de papel". Já a garota que amo, se me fosse dada a chance de amá-la, seria a minha vida, e a minha vida não se mede em palavras, prosa ou verso, mas em sentimentos, troca real e sensível para a qual não existe valor de mercado.

Minha vida e meu amor real não seria o exposto numa prateleira, mas aquele confidenciado debaixo dos lençóis, sobre camas macias e reais, e diante dos olhos vivos e brilhantes da minha garota especial, aquela que nenhuma história poderá retratar com a justa beleza.

Pra mim, Juliana, você será sempre superior a qualquer uma das garotas de papel, que habitam a ficção.

Pra mim você é a flor mais diferente que cultivei, uma flor que não se abre pra mim, porém, a única que não consigo arrancar do meu quintal. Minha casa, meu jardim, desde que vc surgiu e se enraizou aqui, nada faz sentido sem suas cores, sua delicadeza e perfume.

Se implorar pelo amor de alguém tornasse esse amor possível, eu deixaria meu orgulho e ajoelhado, beijaria suas mãos e lhe pediria que me amasse.

Sempre imaginei vc cantando Beatles, mas nunca pude ouvir.

Allan

Puro Landoni disse...

Parabéns, Juliana!

Fico muito feliz por saber que a garota que amo escreve tão bem.

Você escreve pouco texto em prosa, mas lendo este eu tive um desejo: que você escreva mais.

Bjules!

• YuЯi KiddO • disse...

"Ela só sabia, que com ele, todos os mundos que pudesse criar teriam todas as cores possíveis, sem amores impossíveis." - aqui.

Gostei, acho que vou ficar... tem garantia?