sábado, 28 de fevereiro de 2009

Daquilo que não é

-Quando o ano começa mal, parece que vai ser
assim até o fim...
-Que nada, acho que começando mal, melhora depois.
-Ainda bem que você é otimista, aqui não tem
um pingo de esperança.
-Eu penso nas possibilidades.
-Quero roubar isso de você!
-Pode levar, não serve pra nada.
-Não fala isso, serve muito!
-Serve pra que?
-Mesmo que nada dê certo, você ainda
tem alguma coisa, pensou nas possibilidades antes.
-Não, nunca tenho nada, porque eu passo o tempo todo
pensando em possibilidades. É muito vago, não é bom.
-faz sentido.
-Eu sei que faz. Sabe, esses meios de comunicação,
são tão problemáticos, se eles não existissem a
gente poderia tirar metade das irritações da
nossa cabeça!
-Mas aí você também não existiria...
-Não existiria em termos, eu existiria
pra menos pessoas!
-Não estou falando em pessoas, estou falando
de nós dois.
-Mas se a gente tivesse que se conhecer aconteceria
de qualquer forma e no tempo certo...
-Acha que não deveríamos ter nos conhecido?
-Eu acho que nos conheceríamos e acho que
ainda tem coisa demais pra acontecer.
-Por que você tem sempre razão?
-Acho que é porque eu passo muito tempo
pensando nas possibilidades...


Sempre tão vago e que mania de mandar em mim...
Ninguém manda em mim!
Nem eu mesma.
Da próxima vez, pode guardar os bons modos.
Nem precisa de próxima vez.
Não, precisa sim.
Mas vê se aprende pra próxima vez.
Só tenta fazer direito agora.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Sofá de Veludo Vermelho

Ele estava parado, encostado em uma das colunas que dividia a sala da cozinha, olhando fixamente para o chão e procurando um jeito inteligente de dizer que não acreditava no amor, mesmo diante da mulher que mais desejou durante seus jovens e impacientes vinte e dois anos.

Ela estava sentada no sofá de veludo vermelho, tingido agora, com a cor dos resquícios das lágrimas que caiam incessantemente, contra sua vontade. Tentando imaginar, de forma inteligente, o que se passava pela cabeça dele, após dizer que teria que partir, mas que ainda o amava. Devia estar confuso. Estava. Tentava ler sua expressão facial escondida por detrás da sombra e dos óculos de aro-grosso pelo qual era apaixonada.

Ele continuava parado, calado, mas seus olhos já haviam avistado os olhos do outro lado da sala, embaçados pelas lágrimas e se sentiu fraco. Ele estava preparado para a vida, sempre foi independente e decidido, mas ele se via dependente dela agora.

Suas mãos, braços e abraços, carinhos, caretas, suas palavras...

Ele se sentia rei, forte e onipotente, porque durante esses dias, ela esteve todos os dias no lugar marcado, com a beleza de sempre, o sorriso de sempre e o seu silêncio, que ao mesmo tempo em que lhe varria a alma e purificava a vida, deixava-lhe também a dúvida de quanto duraria... O sorriso, o silêncio, a alma, a vida.

Ela agora já recomposta, já sem lágrimas, olhava para ele como criança que espia conversa de adulto, olhava como quem não quisesse olhar, olhava através dos cabelos, que tampavam parte de seu rosto. Nunca foi de falar muito, mas tinha uma inteligência fora do comum, que ninguém, antes dele, havia descoberto, mas ela sempre preferiu se calar. O mundo interno dela era complicado demais até pra ela própria, não saberia explicar, não queria explicar. Ela só sabia, que com ele, todos os mundos que pudesse criar teriam todas as cores possíveis, sem amores impossíveis.

“-Acontece que quatro anos foi muito tempo” – Ele decidiu se pronunciar quebrando parte do silêncio, o silêncio interior continuava.

Aquilo a fez pensar que quatro anos não era nada e mesmo que quatro tivesse o mesmo significado quantitativo que um, ainda seria muito para ele. Ela pensou que fosse tola, pensou até em ir embora, pensou em dizer que... Ela pensou demais e ele resolveu falar qualquer coisa buscando uma reação.

“-Você sabe, não é hora, você disse que me amava, eu disse que não dá mais, espero qualquer coisa, pode me xingar, me bater, nada me surpreende agora...”.

Ela ouviu tudo, querendo não ter ouvido nada, respirou profundamente, levantou e se dirigiu lentamente até ele. Não olhou em seus olhos, não o tocou, já era demasiado difícil estar ali.

“-Você foi a melhor pessoa que eu conheci, eu me apaixonei por cada uma de suas qualidades sem pensar e acabei por amar cada um de seus defeitos pensando ser louca. Eu poderia ver o brilho dos seus olhos a quilômetros de distância. Eu gosto do teu riso contido e do modo como balança a cabeça depois de espirrar, gosto do cheiro de L.A na sua camisa, mesmo querendo que pare de fumar...”.

Ele ouvia tudo como quem não quisesse ouvir. Querendo não dar pra trás.

Ela continuava falando, com medo de não ter outra oportunidade, temendo que a atenção dele já não estivesse mais lá.

“Acontece que eu gosto do seu All Star verde e da sua barba por fazer, gosto da sua voz de Bob Dylan e do violão desafinado. Eu sempre vou gostar, me apaixonar e amar cada parte de você, não sei se é pra sempre, não duvido que seja, mas minhas palavras não são nada comparadas ao quanto eu te amo agora”. – Disse as últimas palavras pegando a bolsa que estava pendurada em uma cadeira laranja, junto com a passagem de volta para o lugar de onde veio.

Até que ele não quis mais saber de vaidade, resolveu esquecer do tempo e falar tudo o que queria de verdade.

“-Eu gosto de você impulsiva, sempre falou mais assim”. – Sorriu e ela permaneceu estática, com a bolsa e a passagem nas mãos, encarava a porta dessa vez. Ele entendeu o silêncio como uma autorização para continuar...

“-Você fica aqui uma semana e muda a minha vida, você brinca com isso e gosta disso, mas você vai embora hoje e eu vou ter que fingir que foi tudo sonho, me conformar que eu não posso nem ir atrás de você pra dizer que gostei da tua mão na minha, do seu sorriso e do sol. Terei que me conformar em não te ligar, me policiando para não pensar se você ouve nossa música todos os dias e vou querer me punir por pensar em você e não saber se está pensando em mim. Vou ter que lembrar que você ficava nas pontas dos pés para me abraçar e como abraçava forte... Vou ter que aceitar se você encontrar outra pessoa, não vou saber se você anda tropeçando muito ainda ou se o seu silêncio anda varrendo muitas almas por aí. Eu vou ter que te imaginar com uma meia de cada cor e isso já não me fará sorrir... Te imaginar cantando Beatles, mas não vou poder ouvir. O ruim é que todos os verbos estarão num passado que agora a gente não conhece, mas que vai doer. O tempo não afasta, a distância não afasta, as pessoas se afastam pelo medo de continuar, pelo medo da entrega. A maioria reclama que não pode mudar o passado, não mudam o presente e têm medo do futuro, mas isso não importa agora, eu amo cada parte de você.”.

Ela então, depois de presenciar novamente a chegada de um silêncio devastador, virou-se para ele como quem não quer se virar e mesmo com receio da resposta resolveu perguntar:

“- E agora? Como é que fica?”.

Antes que qualquer resposta fosse dada, ele resolveu olhar nos olhos e visualizar cada parte possível dela.

“-Agora você pega o avião de volta pra realidade, eu vou começar a reescrever nossa história no passado do presente”. – E sorriu, como quem não quisesse sorrir.

Ela partiu, deixando com ele metade de si e o silêncio, que agora, varria suas lágrimas do sofá de veludo vermelho.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bandolins ♪

Como fosse um par que nessa valsa triste
Se desenvolvesse ao som dos bandolins
E como não e por que não dizer
Que o mundo respirava mais se ela apertava assim
Seu colo e como se não fosse um tempo
em que já fosse impróprio se dançar assim
Ela teimou e enfrentou o mundo
Se rodopiando ao som dos bandolins

Como fosse um lar, seu corpo a valsa triste iluminava
e a noite caminhava assim
E como um par o vento e a madrugada iluminavam
A fada do meu botequim
Valsando como valsa uma criança
Que entra na roda, a noite tá no fim
Ela valsando só na madrugada
Se julgando amada ao som dos bandolins


Considero uma das melhores músicas brasileiras
já feitas até o momento.
Considero também a interpretação
de Oswaldo Montenegro, que me faz
sentir um aperto no coração de tirar o fôlego.
Considerando também que amanhã é aniversário do
Allan, aproveito pra dar parabéns adiantado, já que
amanhã o dia é cheio e eu
não vou poder dar nem um olá que seja...
xD

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

La valse d´Amélie

- Sabe a garota do copo de água?

- Sei.

- Se parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.

- Em alguém do quadro?

- Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar, e sentiu que eram parecidos.

- Em outros termos, prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.

- Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.

- E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Je suis six heures de soleil, six heures, heures...

Bem mais que o tempo que nós perdemos, ficou pra trás também o que nos juntou, literalmente, eu nem sei se seria capaz de lembrar cada passo que levou a tudo isso, o início, o fim ou o meio.

Um desejo singular, secular, inflamável.

O amor tem várias vias, todas de mão-dupla, que seguimos a três e alguns intrusos.

Eu não passo de um brinquedo desmontável, meio descontrolado, que tu chama quando o tédio, ao som de City and Colour, tenta te atacar.

Eu sou um carro desgovernado, em alta velocidade, mas tu se deixa atropelar e então eu te mostro a dor de amar, a dor do amor que nem sempre a gente dá.

Te dou um trevo de cinco folhas, que é muito mais raro, te travo, te pasmo, do jeito que eu quero, mas no fim tudo é remediável e esse mundo curto, de tempo e espaço, me traz a notícia, de que o efeito acabou.

Então a voz ao telefone, dessa vez diz: “Desista disso, desista disso, mas escreva algo que te lembre disto, você resolveu não ligar, mas não vale fugir pra esquecer”.

Me diz onde é a parada final, na escala lunar eu escolho a lua nova, que é pra ver se renova essa fase de esperas.

Sem mais, eu fico onde estou, prefiro continuar distante.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Shooting Star

-Tava pensando em como a vida é injusta Li...

-Pensar pra que, tu tem provas disso toda hora.

-Eu sei, mas é que eu pensei em você e vi que ela não está sendo tão injusta assim comigo.

-Às vezes a vida te dá coisas pra te amostrar que não são nada daquilo que você achava que eram. Não pense em mim, mas em você.

-A vida já me deu tanta coisa, mas você tá na minha vida faz tempo e é a única que continua com a essência inicial. Sabe Li, quando eu penso em você eu me sinto bem.

-Quando eu penso em você eu sorrio, mas isso não quer dizer muita coisa, então não fique feliz.

-E tem como isso não acontecer com você por perto?

-Acho melhor a gente mudar de assunto.

-Eu também acho, mas eu gosto muito de você e isso não vai mudar.

-Não diga que não vai mudar, porque se mudar eu vou lembrar do que você disse e... Vai ser pior.

-Então eu posso pensar?

-Pensar pode, mas se você desejar, talvez se realize...

-Mesmo sem estrela-cadente?

-Uhum, inventa sua estrela, eu te dou uma mecha dos meus cabelos e você coloca como cauda, joga pro céu e faz um pedido, é tão simples...

-Você faz tudo parecer tão simples...

-Quando eu quero, sim.

-Seu sorriso me acalma.

-Se contenta com tão pouco...

-Eu me contento com você.

-Nossa! Muito pouco mesmo.

-Depende de quem vê.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Inestimable

Sorria, sem querer sorrir

Tinha direito a dois grandes amores

Mas escolheu a liberdade