sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Mais um diálogo, por favor!

- Aqui está, senhor!
- Obrigado.
- O senhor está chorando?
- Estou, duas lágrimas.
- De açúcar ou adoçante?
- De açúcar, mas nada que vá deixar o diálogo doce demais.
- Está viajando?
- Sim.
- O que está levando na viagem?
-Centenas de páginas pra escrever, mil idéias na cabeça
e uma garota inesquecível pra esquecer.
- Desculpe, não entendi o paradoxo.
- Sabe, quando me lembro dos olhos dela esqueço que estamos na primavera e que em dezembro será a vez do verão. Quando me lembro do dia em que ela, ainda a minha fada verde-musgo, e eu nos conhecemos, esqueço que já passamos do século XX; esqueço até que não estamos mais na Idade Média! Quando aquela voz doce e recheada por tantos e lindos sentimentos chega de longe até meus ouvidos, esqueço das conversões de energia e é como se cada palavra chegasse, não galgando os postes de um ponto a outro da cidade, mas vindo naturalmente, pelas ondas vibrantes do ar.
- Então por que você está indo embora, assim, tão triste?
- Por que ela é a garota que entende as minhas palavras, o que falo e o que escrevo. Porque ela me ouve, e parece gostar de me ouvir. Porque ela é delicada, ao mesmo tempo em que há uma explosão de juventude dentro dela, e dentro de mim também. Porque ela é desprendida e eu também. Porque ela é sensível e inteligente, por isso não conseguiria ser feliz onde não há beleza e encanto para serem divididos. Porque ela é bonita demais.
- Ué, então, só motivos pra você ficar!
- Sim, claro, seria, mas olha o futuro do pretérito quebrando todo o encanto e a magia da vida. Seria, faria, queria, poderia, mas sendo gramático elimino pra sempre esse tempo enfadonho e sabotador da vida, e junto dele também o ‘mas’, essa conjunção adversativamente letárgica,
esse lithium sintético, ou melhor, sintático.
- Não entendi.
- Está vendo isso aqui? São as melhores páginas da minha história! Que estupidez rasgar e jogar fora o que mais está valendo a pena nessa história chamada vida, páginas que seriam no mínimo lindas e surpreendentes. Mas a minha garota especial me deseja sorte, mesmo sabendo que estou me afastando para deixar o amor que por ela tenho, em tão explícita verdade, num lugar qualquer do mundo.
- Entendi, pra você ela parece não estar se incomodando nem um pouco com isso.
- Com o que sinto, é... Ela quer que sejamos somente amigos.
Por isso me deseja sorte, quando sorte pra mim seria...
- Você gosta muito dela, não gosta?
- Eu? Eu gosto ‘pacas’ daquela garota! Sorte, muita sorte seria se ela aparecesse agora, com o peito exaltado, nítida a corrida dela contra o relógio, e expressando naquele rosto lindo uma vibração e uma alegria de que não se esquece, só por ainda não ter me perdido pra sempre. E então ela diria ofegante: cara, eu gosto ‘pacas’ de você! Fica comigo, porque eu não quero, e nem posso mais ficar longe do cara que amo.
- Senhor? Com licença, senhor?
- Ah, sim, desculpa...
- Mais um diálogo?
[três segundos depois...]
- Não, a conta, por favor.

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