quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Mais Além

O mundo está cheio de patifarias

A vida é uma bosta muito mal feita

E eu não posso simplesmente sorrir diante disso

Indiferença ao que acontece

Desesperança, aborrecimentos e desorganização

São todos tão mesquinhos...

Os acólitos do Sr. Ghandi não podem ver!

Os anarquistas não podem ver!

Os revolucionários não podem ver!

Eu vejo tudo com olhos semi-cerrados

Olhos quase fechados, apertados

Querendo fugir

Eu vejo tudo e vou além

Eu vejo a nudez eólica

E vejo crianças mortas

Um palácio coberto por ouro

Um rei dourado

E súditos amarelos feito ouro

Eu vejo a febre amarela

Crianças com olhos amarelados

E pés cor de ouro-velho

A fome é de um amarelo berrante

O berro é desconfortante

A cidade sofre com a ameaça do ouro em pó

Folhas de um outono amarelas caídas

Livre-arbítrio comprado com moedas

Uma grande lua amarela como o sol

Um girassol que gira e gira e gira

Crianças em roda

Roda gigante

Um futuro do pretérito

Um passado imperfeito

E um presente não “conjugado”

De Hollywood não se pode ver!

Das Sete Maravilhas do Mundo não se pode ver!

Da Cordilheira dos Andes não se pode ver!

Como olhar da janela e não ver?

Como sair pela rua e não se comover?

Como não perceber, se tudo parece desaparecer?

Eu vejo e vou além.

texto por: Juliana Marques

----- Imagem: Orígem desconhecida.

A demanda ideal

Raiva! Raiva! Raiva! A raiva mais virulenta, a raiva de todos os animais da selva, reais ou de borracha, de todos os homens selvagens, de todas as guerras! Poderia admitir: sou eu o dono de toda essa raiva, de todo o inconformismo pelas irônicas surpresas da vida; incompreensível sadismo! Mas para se ter tanta raiva é preciso do sangue que flui dentro dos Homens, uma vez que é necessária uma boa dose de energia tanto para o ódio quanto para o amor. Mas ao contrário de tudo isso, a vida parece não circular em parte alguma do meu corpo paralisado. Ainda me sinto cansado, extenuado depois de mais de uma década, longo tempo em que me mantive firme, ereto por detrás de uma vitrine, expondo meu peito vazio, meus desejos e sentimentos a olhares esquivos, distantes; olhares que me tiram uma perna, um braço, olhares que cortam minha cabeça, que fazem de mim um boneco inútil e desmembrado. Mas eu estou cansado, muito cansado de ficar aqui em pé esperando por um olhar diferente, um olhar que seja capaz de me ver como um boneco de vitrine interessante e melhor do que todos os outros. Não me serve o ódio, nem me serve qualquer filosofia, mas ao mesmo tempo em que nunca me é dada a possibilidade de ser amado por alguém especial eu vivo me perguntando: o que há de errado comigo? Para onde eu devo ir? Eu poderia tocar o coração de uma mulher, ou me tornar desejável?

Eu já fui um homem, mas o tempo foi me transformando. Alheio a todas as criaturas fantásticas que criei, e sempre com uma irritante precipitação, ignorava a mais ínfima e óbvia realidade! Transgredi como um lunático sem qualquer remédio todo o bom-senso. Enquanto eu podia acreditar mais no amor, por ele eu lutava e entregava meu coração, mas todas as mulheres o rejeitavam por algum motivo ou outro. Hoje eu não tenho um coração para ofertar. Sou um "homem" paralisado pela ausência de grandes surpresas; um boneco ainda surpreso a olhar a atividade de grandes mulheres adormecidas para grandes histórias. Cadáveres e manequins não costumam sentir a dor de um coração comprimindo todo o peito pela falta dos mais autênticos e espontâneos sentimentos; entretanto, aqui estou eu, vivo, apesar de boneco. Uhm, essa parece uma daquelas frases tão encorajadoras quanto vazias. De fato, ser amado é um privilégio para todos os manequins vendidos, porém o convívio entre dona e objeto costuma ser bastante limitado por nossa fragilidade. Os bonecos que se quebram frustram a “minha futura dona", cujo nome não conheço, da mesma forma como não se sabe nada sobre o nome dos manequins. Espero tanto por uma chance, mas nenhum coração parece inclinado a me receber! Sou exposto sempre no dia errado, ou então sempre chego no apagar das luzes! Chegar? Mas eu não consigo dar um passo! Nunca chego a lugar nenhum! Vivo sozinho nessa vitrine, enquanto todos os outros bonecos já se foram; foram amados, admirados, muitos depois se partiram, se quebraram. Bonecos que mesmo partidos não desistiram, e ainda que mancos, propuseram às respectivas donas que lhes fossem repostos cada um dos membros mutilados. A dona parecia tentada a reparar os erros, ou seja, o que faltava para que tudo fosse como era antes. Sempre buscando o ideal, a dona esperou do manequim número noventa e nove nada mais do que a "perfeição". Mas e o boneco seguinte? Esse sou eu, o que restou, o boneco número cem, nada perfeito, muito menos convencional. Não tenho o padrão dos bonecos pré-fabricados, que despertam o orgulho dos revendedores e estimulam toda e qualquer comercial concorrência. Além da minha incompreensível personalidade de boneco pensador, nenhuma dona parece considerar a possibilidade de me levar daqui, e me libertar dessas grades vítreas e transparentes, e o principal, me devolver à condição humana; pele, sexo, coração, pulmão, tecidos, tudo isso no lugar da fibra de vidro que faz de mim uma criatura aparentemente fria, e que por isso niguém ouve, ninguém ama. Eu sou o último boneco antes da reposição de estoque, ou seja, o que ninguém quer, pois se todos os anteriores já se foram ou quebraram, por que minhas juntas seriam diferentes, especiais, já que eu pareço cada vez menor e mais velho que os outros? Ao menos se eu pudesse sair daqui só para dizer a ela que eu posso ser bem mais do que um modelo de problemas futuros... Mas nada iria adiantar. Nenhuma palavra, em verso ou em prosa, nenhuma canção, nenhuma promessa maravilhosa. Sou inerte. Não posso dar nenhum passo na direção certa, nem na direção errada. É, eu sei, bonecos comuns não andam, embora tenham duas pernas. Diante de tudo isso, que atitude tomar? Continuo aqui esperando por alguma possível compradora, acreditando num possível e verdadeiro encontro?

A despeito da minha patética esperança, ao olhar para a rua numa manhã de setembro de um ano qualquer, vi uma mulher jovem, quase uma menina, do lado de fora, mas dessa vez apontando para mim, para o boneco que restara. Vi impressas no vidro, que me separava da liberdade das criaturas móveis, formas sem muita nitidez, como que subitamente emergidas da profundidade de um rio calmo, translúcido e parcimonioso. Ainda que não pudesse olhar para o lado, a fim de saber com exatidão o que havia projetado aquelas imagens sobre o vidro, o aroma que me trouxeram e a minha considerável experiência de mais de uma década em pé nessa vitrine, servindo-me, candidato ao amor da primeira compradora que apontasse para mim, não me deixaram nenhuma dúvida: não estaria mais sozinho. E foi exatamente nesse dia que minha dona apareceu. Delicada nos gestos e na pele, trazia consigo, emoldurado por seus cabelos vermelhos e brihantes, um sorriso capaz de aniquilar a paz dos homens santos, ao mesmo tempo que revelava aos homens transgressores da santidade um grande alívio, embora despertasse um imenso desejo. Assim era o sorriso da "minha dona de cabelos fulgurantes". Lembro também de suas luvas pretas; ela sempre as calçava antes de apontar para um manequim, indicando à vendedora sua mais nova preferência, sua última escolha. Lembro-me dela iniciando o ritual. Aberta a bolsa, lá de dentro surgia o par de luvas, muito elegantes. Calçava a primeira, depois a segunda... Ah, se bonecos tivessem um coração ele me faria tremer tanto que eu seria lançado ao chão, e uma vez que fosse projetado, seria o fim daquela vitrine - agora com os vidros estilhaçados - assim como seria o primeiro e último movimento natural e voluntário de um boneco.

À medida que a jovem mulher calçava a segunda luva, eu fechava meus olhos sem pálpebras, nem lágrimas, e ouvindo meu invisível e ilimitado coração ficava esperando que ele batesse tão forte, mas tão forte, que fosse capaz de me jogar logo nos braços daquela jovenzinha elegante, lá fora, onde todos respiram. Não sei quanto tempo se passou, mas continuei com os meus olhos fechados. De repente nada mais importava, a não ser aquela fantástica idéia: serei vendido, e nos braços da minha compradora eu voltarei a ser um homem de verdade, deixarei de ser para sempre um objeto, e ela deixará de ser para sempre a minha dona. Seríamos um homem e uma mulher. Amantes, amigos. Loucos, felizes. Humanos. Eu posso até perder minha rígida cabeça de boneco, mas não seria em vão, pois todos saberiam, entre as criaturas flexíveis e inflexíveis, e sobretudo ela, minha jovem e delicada garota dos cabelos ruivos, que eu não fui o centésimo, mas o primeiro manequim, que mesmo com o peito vazio, foi capaz de dar um passo à frente.

Dedico esse conto à Juliana, minha Juliana, pela qual dou muitos passos à frente na direção da infinita plenitude; seja da vida, ou do amor, do prazer ou da felicidade, não importa, a satisfação que eu teria de me sentir vivo ao seu lado é mais forte e poderosa do que qualquer "verdade" que possa ser lançada aos ventos glacias do convencionalismo ortodoxo, semelhante à verdade de um boneco, incapaz de pensar por sí próprio. É mais forte e poderosa do que tudo que enrijece tanto homens quanto mulheres no instante em que podem ser mais felizes. Dou esse conto a você, minha Juliana, como um presente tardio e mais do que justo, porque lembrar de você é não esquecer nunca que ainda tenho um peito vibrante e plenamente preenchido. Impossível existir dentro de mim qualquer espaço vazio estando você por perto.

Com muito amor e carinho Camillo Landoni