sábado, 21 de abril de 2012

#8


Tem um tufão de ideias no lugar de cabelos
O menino com cara de comunista, com barba, bigode e um bong
O rap mais triste que eu conheço é sobre as histórias que ele não me conta mais
Guevara sem armas 
Sai dessa mata de cachos p'reu te ver
Desiludido da vida, some como quem nunca apareceu
Cadê você que não espalha por São Paulo de novo o amor?
Cadê teu colorido de nanquim no meu quintal?
Cê também voa né, passarinho? 
Que canto de liberdade é esse?
Volta cá pro teu ninho, eu preciso te ler
E piu!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Acúmulo de Azuis - Desesperos Tardios VIII



Era pra durar, era pra durar tanto que tivéssemos tempo de contar para algum descendente das nossas aventuras literárias.  Nesse dia, era pra estar nossas famílias reunidas num lugar calmo, ouvindo nossas histórias inventadas e seus sonhos esquisitos nos quais você sempre me carregava até um lugar seguro porque eu geralmente quebro o pé nos seus sonhos.
Era pra durar o suficiente até nós só largarmos as mãos por falta de força do coração bombear a pressão necessária pro nosso segurar.
Era pra nós criarmos uma teoria que fosse ensinada nas faculdades sobre “quando não acaba”. Uma teoria que contradissesse Platão de alguma forma e tudo mais que nunca teve razão nas nossas antirregras. Nosso anarquismo singelo de novela mexicana, completamente falso e real.
Era pra ser tanta coisa que não foi, parou no tempo em que teorias de faculdade eram mais importantes pro mundo que toda essa coisa cósmica de mãos que, na verdade, nunca se juntaram.
Nós paramos no tempo em que o tempo andava escasso, em que os relacionamentos eram rasos e nós éramos tão soberbos, mas tão amáveis ao achar que transcenderíamos as barreiras dessa sociedade tecnologicamente atrasada no amor.
Você pra mim é o único que é soul e blues. A alma do negócio e o último suspiro de esperança. É a metade da laranja de um limão, que adocicou e curou a febre de anos.  Cê tem todas as cores de azul no sorriso e eu sinto tanto a sua falta.
Não é uma surpresa me deparar com você em tudo que eu mais gosto nessas manhãs solitárias nas quais apanhadores em campos de centeio seguram estrelas como se pegassem vaga-lumes. Você é meu Tom Waits com jeito de Clapton quando a lua brilha antes do dia escurecer. Você azul-celeste.
Você é, sou.

terça-feira, 13 de março de 2012

Desesperos Tardios VII - O Que Acontece no Escuro


Hoje usei o banheiro de deficientes. E a vaga de estacionamento especial. Subi pela rampa com dificuldade tateando tudo em volta. Hoje eu li em braile e falei na linguagem dos sinais. Tão impotente que parecia não ter braços, pernas, muito menos uma cabeça, mas estavam todos lá, então o que me fez deficiente? Pedi ajuda por código morse e, por Deus, ninguém ajudou a malfadada.  
Senti-me tão inútil nas últimas duas horas e nas últimas duas semanas e talvez nos últimos dois meses que se estendem desde o último Natal bom que tive lá pelos anos noventa, que fiz questão de assumir minha má-formação publicamente sem saber se me viam. Fiz questão de cantar o canto torto do urubu que anuncia o que a grande maioria teme. Afugentaram-me.  Renegada, aquietei-me no canto do limbo onde o sapo modernista de Manuel Bandeira ainda dizia coisas descabidas para minha mente insana e confusa. Entrei na fila preferencial e fui a última a ser atendida, não tinham troco, não tinham tempo, uma cruz tão pesada sobre todos que desandei a procurar uma saída, mas o que me fez deficiente?
A margem, sem saber nadar, presa a um limbo e rejeitada por um sapo... Quisera eu ser a primavera pra depois morrer!  O que me fez perder as últimas duas horas na vaga para deficientes inventando coisas descabidas sobre não ter braços, pernas ou cabeça?
Disseram-me uma vez que: “dióxido de carbono concentrado mata, passarinho que não voa gato come, todas as proparoxítonas são acentuadas  e que bom que você nasceu saudável, menina.”  
Então, porquê eu sou tão deficiente?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Primeira das Mais Simples – Prisão no Céu (Recomeço)

Para ler ouvindo: Só Sei Dançar Com Você - Tiê (Cover Tulipa Ruiz)


Eu não sei porque foi você, só sei que não ia dar certo com nenhum outro.
Todo mundo que sabe o mínimo da nossa história me pergunta: Quem é ele? Cadê foto? Tá escondendo é? –Eu mostro e todo mundo se decepciona –É disso que você gosta? Você já foi mais seletiva!
Bem sei que você não tem um nariz lindo, teus modos às vezes me lembram daqueles moleques arruaceiros, sei que seu cabelo bagunçado não é um charme, eu nem gosto muito daquele short que cê usa pra ir à praia – mas o seu sorriso é lindo e você quase não usa e seus olhos ficam pequenininhos quando sorri, eu acho lindo quem também sorri com os olhos. Eu gosto do seu cabelo cortadinho, sempre aparado e acho engraçado a sua orelha ser um pouquinho torta, assim como meu dedo mindinho. Então eu posso encher a boca e dizer: É dele que eu gosto minha gente e que bom que não agradou, porque com vocês eu já não preciso me preocupar!
Eu posso não gostar de tanta coisa em você a ponto de te amar? Sei que você também vê meus defeitos, me acha meio exagerada nos carinhos ou então fria como se fossemos desconhecidos, mas tu também não me acha perfeita do meu jeito torto de ser?  É sim, eu te amo bobinho e agora que eu disse você tem que dançar comigo de novo, pra variar o meu ritmo e me rodar de um jeito novo porque eu não resisti a sua melodia.
Acaba que no final das contas, somando seu short feio e sua orelha meio torta, eu tenho mais defeitos que você e você não ama?

 É o mesmo céu ainda, mas o passarinho que aqui gorjeia, bem, ele sabe dançar.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Desesperos Tardios - Semeando Enlatados


-Com licença, quer ajuda?
-Ah, sim! Se você estiver com tempo, poderia me ajudar a procurar um amor?
-Desculpe, mas amores são na seção de jardinagem...
-Sim, amores novos são lá, mas o meu amor antigo eu aposto que está aqui entre os congelados...
-Dentro da data de validade, espero...
-Acho que amores enlatados podem durar toda uma vida.
-Cuidado com os enlatados, eles costumam cortar.
-Mas se os novos não germinam eu vou correr o risco que um amor antigo pode trazer... Talvez ganhe algumas marcas, mas também pode ser que a gente seja mais do que a maioria vai encontrar. É como dizem - Eles podem achar que você é doce, mas nunca realmente provaram de você, não é?